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Foto: José Fernando Ogura/Arquivo Agência de Notícias do Paraná

Uma pesquisa conduzida em áreas de café em Minas Gerais aponta que a adoção de práticas inspiradas na agricultura regenerativa pode reduzir em até 30% a incidência do bicho-mineiro, considerada a principal praga da cafeicultura no Brasil

O resultado foi observado em áreas do Cerrado Mineiro que passaram a adotar o plantio de cobertura vegetal nas entrelinhas e a formação de corredores ecológicos com árvores e arbustos entre os talhões de café.

O objetivo do estudo foi avaliar de que forma o aumento da diversidade vegetal nas lavouras influencia a presença de inimigos naturais das pragas, reduzindo a dependência de defensivos químicos e tornando o sistema produtivo mais resiliente às mudanças climáticas.

A pesquisa é coordenada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em parceria com a Nespresso, envolvendo 14 fazendas da região. Entre as propriedades participantes está a Fazenda São Mateus, no município de Patrocínio, que já vinha adotando técnicas de agricultura regenerativa antes do início do projeto.

Segundo a pesquisadora da Epamig, Madelaine Venzon, responsável pelo estudo iniciado em 2021, o primeiro passo foi selecionar espécies vegetais compatíveis com cada ecossistema local. “O sistema funciona como uma agrofloresta em linhas. A proposta da agricultura regenerativa é aproximar a produção agrícola do funcionamento natural dos ecossistemas, com foco na saúde do solo e na recuperação da biodiversidade”, explica.

Após quatro anos de monitoramento, os resultados preliminares indicam aumento significativo da população de insetos benéficos, como vespas, formigas predadoras e ácaros que atuam no controle biológico de pragas. Em algumas áreas, a população do bicho-mineiro chegou a cair quase pela metade.

“Os insetos representam cerca de 70% dos animais conhecidos e são importantes bioindicadores ambientais. Quanto maior a diversidade, mais o sistema se aproxima de um ambiente florestal equilibrado. Eventos climáticos extremos afetam diretamente esses organismos, que são essenciais para a saúde das lavouras”, afirma Venzon. Segundo ela, a estratégia também contribui para a manutenção de serviços ecossistêmicos, como polinização, controle natural de pragas e melhoria da estrutura do solo.

Para os produtores envolvidos, os dados reforçam a relação entre diversidade ambiental e estabilidade produtiva. De acordo com Ricardo de Oliveira, supervisor da Fazenda São Mateus, sistemas mais próximos do funcionamento de uma floresta tendem a ser mais resilientes frente às variações climáticas e sanitárias. “A experiência mostra que é possível conciliar produção de qualidade com práticas que regeneram o ambiente”, afirma.

Os pesquisadores destacam que os resultados ainda são preliminares, mas indicam um caminho promissor para a cafeicultura diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela pressão de pragas e pela necessidade de reduzir custos e impactos ambientais no médio e longo prazo.