Descubra como o gergelim se tornou uma cultura relevante na região Centro-Oeste do Brasil e as suas vantagens de produção
Foto: luis_molinero

Resumo da notícia

  • O gergelim deixou de ser uma cultura regional e passou a ocupar espaço relevante na safrinha, especialmente após a soja, com avanço do cultivo no Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
  • Com ciclo curto, tolerância ao déficit hídrico e baixo custo de produção, a cultura se adapta bem à janela da safrinha e reduz riscos climáticos para o produtor.
  • Segundo a Conab, a área plantada permanece em 608 mil hectares nas safras 2024/25 e 2025/26, com produtividade média de 657 kg/ha e produção estimada em 399,4 mil toneladas.
  • O avanço do melhoramento genético, com cultivares adaptadas à colheita mecanizada e materiais como a BRS Morena, tem sido decisivo para a expansão em grandes áreas e para o acesso a mercados de maior valor agregado.
  • Cerca de 90% da produção brasileira é destinada à exportação, principalmente para países da Ásia e do Oriente Médio, enquanto nichos internos, como o segmento gourmet, começam a ganhar relevância.

Presente na agricultura brasileira desde a década de 1950, o gergelim (Sesamum indicum) teve sua introdução no mercado nacional com o cultivo concentrado nos estados de São Paulo e Paraná. Na época, a maior parte da produção era destinada ao consumo interno, enquanto uma pequena fração seguia para exportação, principalmente ao Oriente Médio.

A partir da década de 1970, no entanto, as poucas áreas cultivadas com gergelim começaram a perder espaço para a soja, no oeste, nordeste e norte do Paraná, e para a laranja e a cana-de-açúcar, em São Paulo.

Nos anos 1980, outra reviravolta: o consumo de gergelim no Brasil disparou, impulsionado por sua popularização na alimentação da classe média. A chegada da rede norte-americana de fast-food McDonald’s ao país contribuiu para ampliar o uso das sementes no dia a dia, principalmente na panificação. Como reflexo, a área colhida com o grão saltou de cerca de 5 mil hectares na safra 1979/80 para aproximadamente 20 mil hectares em 1988/89.

A pesquisadora da Embrapa Algodão e chefe-geral da unidade, Nair Arriel, conta que, atualmente, o gergelim está em um processo acelerado de expansão. Hoje, ele já não é apenas uma cultura regional, mas uma alternativa consolidada em grandes áreas.

Uma cultura moldada para a safrinha

No calendário agrícola brasileiro, o gergelim é muitas vezes julgado como cultura de verão, característica ligada à sua origem em regiões semiáridas da África. A planta apresenta elevada tolerância ao déficit hídrico e, ao mesmo tempo, sensibilidade ao excesso de água e a temperaturas mais baixas.

Esse perfil fisiológico, no entanto, permitiu que o cultivo se ajustasse com precisão à janela da safrinha brasileira, sobretudo no Centro-Oeste, onde ele é hoje implantado logo após a colheita da soja. Com ciclo entre 90 e 100 dias, o gergelim aproveita a fertilidade residual do solo e reduz a exposição a riscos climáticos, fatores que vêm pesando na decisão dos produtores.

Na prática, o gergelim disputa área principalmente com o milho de inverno e, em menor escala, com o girassol. A escolha pelo seu cultivo, todavia, passa menos pela competição direta entre culturas e mais pela análise econômica.

“O gergelim tem custo de produção menor, demanda menos água e menos insumos. Quando o preço do milho está pressionado, ele surge como uma opção viável e competitiva”, explica a pesquisadora.

Além do aspecto financeiro, a cultura contribui para a diversificação dos sistemas produtivos no Brasil, suprindo a demanda interna pela semente e aumentando a resiliência das propriedades rurais.

Produção estabilizada em patamar elevado

Esse movimento de cultivo na segunda safra já se reflete nos números oficiais. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área plantada com gergelim no Brasil está estimada em 608 mil hectares na safra 2025/26.

A produtividade média nacional é projetada em 657 kg/hectare, o que deverá resultar numa produção de 399,4 mil toneladas, volume semelhante ao colhido em 2024/25.

Embora os dados indiquem estabilidade produtiva de uma safra para a outra, técnicos do setor avaliam que a área efetivamente cultivada pode ser maior neste ano, diante da expansão observada em estados como Mato Grosso, Pará, Tocantins e Goiás.

Do ponto de vista agronômico, o gergelim é considerado uma cultura de fácil manejo. O principal desafio está na colheita, já que muitas cultivares apresentam abertura natural das cápsulas, o que pode provocar perdas expressivas de grãos.

Nessa linha, a introdução de variedades mais adaptadas ao cultivo mecanizado, como o Gergelim K3, foi decisiva para viabilizar o cultivo em grandes áreas, especialmente no Centro-Oeste. Paralelamente, o avanço do melhoramento genético vem ampliando a eficiência produtiva e a padronização dos grãos.

BRS Morena e o mercado de valor agregado

Um dos marcos recentes desse avanço genético é a BRS Morena, cultivar desenvolvida pela Embrapa Algodão, em Campina Grande (PB). Seu diferencial está na película marrom-avermelhada das sementes, característica valorizada em mercados específicos e na culinária gourmet.

“A BRS Morena apresenta alta produtividade e teor de óleo acima de 50%”, explica Nair. Em condições de sequeiro, o potencial produtivo chega a 980 kg/ha, podendo alcançar 1.800 kg/ha em sistema irrigado.

A cultivar é recomendada para cultivo mecanizado, em pequena ou larga escala, sobretudo nos estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Além disso, ela tornou-se a primeira cultivar de gergelim com proteção concedida no Brasil, garantindo à Embrapa os direitos exclusivos de exploração e maior controle sobre a qualidade das sementes ofertadas ao mercado.

“A proteção é estratégica diante da expansão da cultura e da crescente demanda por sementes de qualidade”, destaca a pesquisadora.

Exportação concentra consumo

A produção brasileira de gergelim é fortemente direcionada ao mercado externo. No momento, o país ocupa o sétimo lugar como maior exportador mundial do grão, com 5,31% de participação no comércio global.

No mercado interno, o consumo ainda é restrito, concentrado na panificação e na culinária asiática. No entanto, nichos específicos começam a ganhar espaço, especialmente no segmento gourmet. “Na culinária árabe, por exemplo, eles preferem o tahine feito com sementes de coloração mais escura, que trazem um diferencial de sabor”, observa Arriel.

Uma cultura estratégica para o campo

Ao combinar baixo custo de produção, tolerância ao estresse hídrico e demanda internacional aquecida, o gergelim vem se consolidando como uma cultura estratégica para o agronegócio brasileiro.

O avanço genético, exemplificado pela BRS Morena, amplia o acesso a mercados premium e reforça o potencial de agregação de valor ao longo da cadeia produtiva. “Mais do que competir com outras culturas, o gergelim amplia a diversidade agrícola brasileira e abre novas oportunidades comerciais para o produtor”, resume a pesquisadora.