Entenda a produção de erva-mate no Brasil e conheça seu potencial de exportação e desafios enfrentados pelos produtores
Foto: zirconicusso/Freepik

Resumo da notícia

  • O Brasil lidera a produção mundial de erva-mate, mas ainda enfrenta entraves de manejo e baixo aproveitamento do potencial produtivo e comercial.
  • O Rio Grande do Sul é peça-chave da cadeia, concentrando produção, consumo interno e cerca de 80% das exportações nacionais.
  • A produtividade média dos ervais é baixa, em torno de nove toneladas por hectare, apesar de pesquisas indicarem potencial quase três vezes maior.
  • Pequenos produtores são os mais rentáveis na cultura, enquanto grandes áreas enfrentam custos elevados e desafios operacionais na colheita.
  • Diversificação de produtos, como bebidas e cosméticos, surge como caminho para ampliar mercados e reduzir a dependência do consumo tradicional.

O Brasil ocupa uma posição estratégica no mercado global de erva-mate. Líder mundial na produção da cultura, o país colheu cerca de 841 mil toneladas em 2024, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), superando concorrentes tradicionais como Argentina e Paraguai.

No mercado externo, os embarques brasileiros somaram mais de 48,6 mil toneladas em 2025, segundo dados do ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O Uruguai é o principal destino da erva-mate nacional, que responde por cerca de 80% do consumo uruguaio, já que o país não possui condições naturais para o cultivo da planta. Além do mercado uruguaio, que foi o destino de 45,3% das exportações no ano passado, o Brasil também embarca erva-mate e derivados para Estados Unidos, Síria, Argentina, Alemanha, França, entre outros destinos.

Ainda assim, especialistas apontam que o potencial produtivo e comercial da erva-mate segue subaproveitado, em meio a dois grandes desafios: elevar a eficiência dos ervais e diversificar os usos da erva-mate para além do consumo tradicional.

Solucionar esses problemas é visto como fundamental para garantir sustentabilidade econômica ao produtor rural e ampliar a competitividade do produto brasileiro no cenário internacional.

Rio Grande do Sul tem papel central na cadeia da erva-mate

Dentro desse cenário, o Rio Grande do Sul exerce papel decisivo. O estado é o segundo maior produtor nacional, com aproximadamente 345 mil toneladas em 2024, e lidera as exportações brasileiras da cultura. De acordo com a Emater/RS, cerca de 80% dos embarques nacionais de erva-mate partem do território gaúcho, envolvendo aproximadamente 14 mil famílias ao longo da cadeia produtiva.

Além da produção, o Rio Grande do Sul também concentra o maior mercado consumidor do país. Ainda assim, o consumo interno vem apresentando retração nos últimos anos. “O consumo per capita caiu de 11 quilos antes da pandemia para cerca de 9 quilos atualmente”, afirma Ilvandro Barreto de Melo, assistente técnico da Emater/RS e coordenador da Câmara Setorial da Erva-Mate no estado.

Segundo ele, fatores como a maior oferta do produto e a mudança nos hábitos das novas gerações ajudam a explicar esse movimento. “O chimarrão, em muitos casos, deixou de ser um ritual coletivo dentro do ambiente familiar”, observa o pesquisador, destacando que, apesar da queda, o hábito segue culturalmente relevante no estado.

Manejo inadequado limita produtividade dos ervais

Um dos principais gargalos da cultura está no manejo agrícola. Atualmente, a produtividade média dos ervais brasileiros gira em torno de nove toneladas por hectare, com ciclos de colheita entre 18 e 24 meses. O volume, porém, é considerado baixo frente ao potencial da planta.

“Em áreas experimentais, as pesquisas já alcançam produtividades próximas a 25 toneladas por hectare”, explica Ives Goulart, engenheiro-agrônomo, doutor em Produção Vegetal e analista da Embrapa Florestas. De acordo com ele, a diferença entre os resultados ocorre, em grande parte, pela adoção de práticas de manejo desatualizadas, muitas delas herdadas do modelo extrativista tradicional.

Historicamente, os povos originários da Região Sul realizavam a colheita da erva-mate em intervalos longos, de cinco a seis anos, permitindo a regeneração completa da planta após a poda total. “A Embrapa e o IBGE classificam esse modelo como extrativismo vegetal. Ele ainda existe por tradição, mas não representa mais o sistema produtivo”, afirma Goulart.

Boas práticas elevam produção e preservam a planta

Do ponto de vista técnico e comercial, a recomendação é clara: a poda deve ser limitada a, no máximo, 80% da planta. Isso porque a folha da erva-mate é, ao mesmo tempo, o produto comercializado e o principal reservatório de nutrientes do vegetal.

“Quando se poda toda a planta, praticamente se inviabiliza o erval, já que o tempo de recuperação aumenta significativamente até que seja possível uma nova colheita”, explica o pesquisador da Embrapa.

Para enfrentar esse problema, a instituição desenvolveu o Sistema de Produção Erva 20, um guia técnico que reúne boas práticas de manejo com foco no aumento da produtividade e na sustentabilidade dos ervais.

Outro ponto destacado por Goulart é a diversificação dos sistemas de cultivo. A erva-mate pode ser plantada tanto em áreas abertas, semelhantes às lavouras de café, quanto em sistemas sombreados. “Na natureza, a planta se desenvolve sob a copa de árvores maiores, como a araucária. Esse modelo, além de produtivo, contribui para o sequestro de carbono”, ressalta.

Pequenos produtores concentram maior rentabilidade

A cultura da erva-mate apresenta elevada relevância social, especialmente para pequenos produtores. Segundo a Embrapa, o lucro líquido médio varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por hectare, e as propriedades dedicadas à atividade costumam ter até seis hectares de ervais, inseridos em áreas rurais de aproximadamente 20 hectares.

Em grandes propriedades, no entanto, o cenário é mais desafiador. Os custos operacionais tendem a ser mais elevados, principalmente pela necessidade de terceirização da colheita, que exige mão de obra especializada para a realização de podas adequadas.

“Por isso, o avanço das técnicas de manejo entre pequenos produtores teria impacto direto no aumento da produção nacional”, afirma Goulart.

Novos mercados ampliam oportunidades para a cultura

Para os especialistas, o futuro da erva-mate no Brasil passa pela diversificação de usos e mercados. “A inclusão da erva-mate na alimentação escolar gaúcha e a absorção do produto por novos segmentos industriais devem ampliar a demanda”, projeta Barreto de Melo.

Além dos tradicionais chimarrão, tereré e chá-mate, associações e cooperativas têm investido no desenvolvimento de novos produtos, como bebidas energéticas e refrescantes à base de mate, especialmente voltadas ao público jovem. “Esse consumo cresce justamente entre quem não tem o hábito tradicional do chimarrão”, observa Goulart.

Outro segmento em expansão é o de cosméticos. Cremes, shampoos, sabonetes e loções hidratantes produzidos a partir da erva-mate já começam a ganhar espaço no mercado. 

“O exemplo do mate com limão vendido nas praias do Rio de Janeiro mostra como o consumo pode ser adaptado a diferentes climas e perfis”, brinca o pesquisador da Embrapa.