
Resumo da notícia
- Os EUA eliminaram tarifas extras e reabriram espaço competitivo para mais de 200 produtos do agro brasileiro, encerrando meses de incerteza comercial.
- A carne bovina é a maior beneficiada: volta a ser até 18% mais barata que nos EUA, retomando a liderança frente à Austrália e impulsionando embarques brasileiros.
- Beef trimmings ganham vantagem: produto brasileiro está até 23% mais barato que o americano, indicando forte recomposição nos próximos meses.
- O café recupera fôlego com o fim das tarifas, mas o setor alerta para risco de perda do mercado de solúvel, que segue fora da isenção.
- O mel e o pescado continuam prejudicados; entidades cobram negociação urgente para evitar perdas a pequenos produtores e risco de retração nas exportações.
A decisão da Casa Branca de eliminar completamente as tarifas impostas em setembro sobre diversos produtos brasileiros abriu um novo capítulo para o comércio agrícola entre Brasil e Estados Unidos. A medida – formalizada em 20 de novembro, por meio de modificações à Ordem Executiva 14.323 – revogou a alíquota adicional de 40% e encerrou um período de incertezas iniciado em agosto.
A mudança beneficia mais de duzentos itens, com destaque absoluto para carne bovina, café e frutas, que haviam sido duramente atingidos pelas restrições. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) classificou a reversão como resultado da “força dos produtores rurais brasileiros” e do impacto das tarifas na inflação e na logística norte-americana, fatores que aceleraram a pressão política interna nos EUA pela revisão das medidas.
Segundo avaliação da consultoria DATAGRO, o produto mais favorecido pela retirada das tarifas é a carne bovina brasileira, cuja competitividade nos Estados Unidos voltou a ser expressiva. Mesmo considerando o pagamento da tarifa de excedência da quota tarifária (TRQ), a proteína brasileira deverá chegar ao mercado americano entre 14% e 18% mais barata do que o produto equivalente no atacado dos EUA.
Com isso, o Brasil recupera a dianteira frente à Austrália, que havia superado os embarques brasileiros em 2024.
O impacto mais imediato será sentido no mercado de beef trimmings, principal item exportado pelo Brasil para os EUA. Hoje, o produto brasileiro está 11% abaixo do preço australiano e 23% mais barato do que as aparas norte-americanas – diferença que deve impulsionar embarques recordes.
“Os preços de exportação dificilmente ultrapassarão os patamares internos dos EUA ou da Austrália, permitindo ampla recomposição dos volumes embarcados”, avalia a DATAGRO.
A consultoria projeta ainda que a quota TRQ de 2026 deve ser preenchida em “tempo recorde”, impulsionada pela demanda reprimida e pelo preço elevado da carne bovina no mercado norte-americano. Mesmo com as tarifas ainda em vigor, o Brasil exportou mais de 10 mil toneladas da proteína em outubro, sinalizando forte retomada.
A DATAGRO destaca ainda que a decisão norte-americana abre um “novo ciclo de reequilíbrio do mercado global, devolvendo ao Brasil a condição de fornecedor de referência para a carne industrializada e para aparas”, segmentos que mais sofreram com as tarifas desde agosto.
A visão é compartilhada pela a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que afirma que o fim das taxas “reforça a estabilidade do comércio internacional e mantém condições equilibradas para todos os países envolvidos, inclusive para a carne bovina brasileira”.
Café: alívio para o setor, mas com alerta para o café solúvel
Outro setor duramente atingido pela medida inicial, o café brasileiro volta agora a operar em condições comerciais adequadas. Para a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), a nova ordem “corrige a distorção criada pelas tarifas entre o principal mercado consumidor e o maior produtor e exportador global”.
O Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), por sua vez, classifica o desfecho como “uma histórica vitória” para toda a cadeia produtiva.
Os números reforçam a relevância da decisão: o Brasil é o maior produtor mundial de café arábica, com 36,5 milhões de toneladas projetadas para 2025/26, e o segundo maior de robusta, com 25 milhões de toneladas. Apenas em 2024, foram enviadas aos EUA 6,66 milhões de sacas, sendo 81,1% desse volume de arábica.
O período de maior embarque – entre agosto e dezembro – coincide com a retirada das tarifas, o que deve fortalecer ainda mais as exportações brasileiras nas próximas semanas.
Apesar do avanço, o café solúvel não foi incluído na lista de isenções. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS) alerta para prejuízos significativos: desde agosto, as exportações caíram 52%.
“O mercado dos EUA é de vital importância estratégica para o Brasil. Há risco de substituição permanente do café solúvel brasileiro nas prateleiras, e recuperar esse espaço pode ser extremamente difícil”, afirma a ABICS.
Setores que ainda aguardam solução: mel e pescado
Assim como o café solúvel, outros produtos importantes ficaram de fora da retirada das tarifas. Entre eles, mel natural e pescado, cujas cadeias produtivas são formadas majoritariamente por pequenos e médios produtores.
O Brasil exportou R$ 100,5 milhões em mel natural em 2024, sendo R$ 78,6 milhões destinados aos EUA, de acordo com dados do o sistema ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Já no caso do pescado, as vendas para os Estados Unidos somaram US$ 30,2 milhões entre agosto e outubro deste ano, queda superior a 30% em relação a 2024.
Jairo Gund, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), faz um alerta sobre o risco aos empregos e investimentos do setor, enquanto o presidente da Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura (CBA), Sérgio Farias, reforça a necessidade de negociação urgente. “A maioria dos produtores de mel é da agricultura familiar. Precisamos de uma solução para a próxima safra. Esse mel não pode ser estocado”, alertou Farias.