
Resumo da notícia
- A idealização do produtor rural próspero contrasta com a rotina marcada por incertezas, jornadas longas, dependência do clima e forte solidão.
- Dados revelam altos índices de depressão, ansiedade e estresse, além de taxas de suicídio masculino no campo quase duas vezes maiores que a média nacional.
- A mentalidade de “aguentar tudo”, somada ao risco climático, à instabilidade de preços e ao medo de perda da safra, reforça o silêncio emocional e dificulta a busca por ajuda.
- Psicólogos destacam sintomas como cansaço extremo, irritabilidade e isolamento; pequenas rotinas de descanso e apoio comunitário e podem mitigar o adoecimento.
- O PL 1751/25 cria a Política Nacional de Saúde Mental para a Agricultura Familiar, prevendo acolhimento psicológico, terapia comunitária e campanhas educativas, ampliando o debate e quebrando o estigma.
Por anos, grande parte da sociedade brasileira sustentou a ideia de que todo produtor rural é rico, dono de grandes extensões de terra e cercado de conforto. A ascensão da imagem do “agro pop”, intensificada pela publicidade e pela força econômica do setor, reforçou ainda mais esse imaginário.
No entanto, fora das telas, a rotina no campo está longe da romantização. Para a maior parte dos pequenos e médios produtores, o dia a dia envolve incertezas, jornadas longas, dependência do clima e uma solidão que pesa mais do que a enxada.
Os números desmontam qualquer vestígio de glamour. De acordo com dados citados pelo psiquiatra, e também produtor rural, Augusto Cury, 35% dos produtores rurais brasileiros sofreram depressão em 2024, enquanto 25% afirmaram que, nos últimos 12 meses, sentiram que “não valia a pena viver”.
A ansiedade já marcou a vida de 57% deles, e 43% relatam níveis altos de estresse. Mais alarmante: agricultores do sexo masculino morrem por suicídio a uma taxa quase duas vezes maior que a dos homens em geral.
Para o psicólogo Thiago Ramos, da Iron Telemedicina, a romantização do campo funciona como uma cortina de fumaça que invisibiliza o sofrimento emocional de quem vive da terra. “O isolamento, a distância dos serviços e a rotina pesada tornam o campo um ambiente onde o sofrimento emocional costuma aparecer no silêncio”, afirma.
Entre a tradição e o cansaço invisível
A cultura rural – marcada pela força, pela resiliência e pela lógica do “seguir em frente” – muitas vezes impede que produtores reconheçam quando algo não vai bem. “Existe no campo uma cultura forte de resistência, de ‘aguentar tudo’, e isso faz muita gente demorar para procurar apoio”, diz Ramos.
Essa postura se agrava diante de fatores que fogem ao controle do produtor: oscilações de mercado, instabilidade de preços, problemas climáticos, pragas, doenças em animais e o medo constante de perder a safra ou comprometer o sustento da família.
“A ansiedade no campo não é abstrata”, explica o psicólogo. “Ela está ligada à chuva que não vem, ao preço que cai, à conta que vence. É um tipo de estresse que se renova a cada safra”, completa.
Sinais de alerta e cuidados simples
Em um cenário tão exigente, identificar sinais de adoecimento emocional é fundamental, especialmente em regiões onde o acesso a serviços de saúde é mais limitado. Ramos lista alguns sintomas que merecem atenção:
- queda de energia e cansaço constante;
- alterações no sono ou no apetite;
- perda de produtividade e dificuldade de concentração;
- irritabilidade e impaciência fora do comum; e
- isolamento da família e da comunidade.
Pequenos hábitos do dia a dia podem ajudar a proteger a saúde emocional. Entre as práticas sugeridas por Ramos estão:
- organizar a rotina com pausas reais, mesmo que curtas;
- buscar conversas e apoio na família ou vizinhança;
- participar de cooperativas, associações e eventos comunitários;
- separar, quando possível, momentos de lazer e descanso mental;
- não normalizar dores constantes, cansaço extremo ou sofrimento emocional; e
- procurar ajuda profissional ao perceber sinais persistentes.
O psicólogo indica que, apesar da telemedicina facilitar o acesso a profissionais especializados, ainda há barreiras tecnológicas importantes. “A telemedicina amplia o cuidado, mas ela precisa vir acompanhada de orientação e familiaridade com a tecnologia”, diz.
Tema ganha força no Congresso
O aumento dos casos de ansiedade, depressão e suicídio no meio rural finalmente chegou à pauta legislativa. Elaborado neste ano pelo deputado Leo Prates (PDT-BA), o Projeto de Lei 1751/25, que cria a Política Nacional de Saúde Mental para a Agricultura Familiar, tramita em caráter conclusivo na Câmara dos Deputados.
A proposta já foi aprovada pela Comissão de Agricultura e Pecuária, mas ainda aguarda parecer favorável das Comissões de Saúde; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça. Se aprovado, seguirá para o Senado, antes de virar lei.
O texto prevê ações como o acolhimento psicológico em unidades de saúde; terapia comunitária em áreas rurais; campanhas educativas sobre saúde mental; prevenção ao suicídio; e parcerias com instituições especializadas.
Quebrar o silêncio é urgente
A saúde mental no campo começa a ganhar espaço no debate público, mas ainda enfrenta estigma e falta de informações. Para Ramos, o primeiro passo é fazer com que produtores se sintam autorizados a pedir ajuda.
“Cuidar da saúde mental significa olhar para si, para a família e para o entorno. O apoio comunitário ajuda muito quem vive no campo”, afirma. Desfazer o mito do produtor invencível é fundamental, porque, por trás do agronegócio que alimenta o país, há gente de carne e osso.