O seguro rural passa por uma transformação no Brasil e no mundo, e pode se tornar uma ferramenta essencial na economia de baixo carbono
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Resumo da notícia

  • O seguro rural tem assumido um papel estratégico, indo além da proteção financeira para atuar como ferramenta de apoio à transição para uma economia de baixo carbono.
  • Novos produtos e parcerias incentivam práticas regenerativas, oferecendo melhores condições de seguro a produtores que investem em manejo sustentável.
  • O uso intensivo de dados climáticos, sensoriamento remoto e seguros paramétricos são algumas tendências internacionais e começam a ganhar escala no Brasil.
  • Imagens de satélite, inteligência artificial e geotecnologias viabilizamapólices mais justas, personalizadas e ágeis, democratizando o acesso ao seguro.
  • O seguro rural se consolida como instrumento essencial de gestão, previsibilidade financeira e continuidade da atividade frente a eventos climáticos extremos.

O seguro rural passa por uma verdadeira transformação no Brasil. Diferentemente do que o senso comum nos leva a pensar e do que seu próprio nome sugere, ele tem deixado, aos poucos, de ser visto apenas como um instrumento de indenização em caso de perdas para assumir um papel mais amplo: o de indutor de boas práticas, de resiliência climática e de sustentabilidade econômica no campo. 

Esse movimento acompanha uma tendência internacional e já se materializa em iniciativas conduzidas por seguradoras que atuam de forma integrada com ciência, tecnologia, crédito e políticas públicas.

Em entrevista exclusiva ao Broto Notícias, Paulo Hora, superintendente-executivo da Brasilseg, indica que proteger o agronegócio hoje exige ir além da lógica tradicional de mitigação de riscos. “O seguro passa a ser uma ferramenta estratégica para sustentar a transição do agro a modelos mais resilientes, produtivos e alinhados à economia de baixo carbono”, afirma.

Novos seguros, novos incentivos

Diante dessa nova lógica, conta Hora, a Brasilseg tem apostado em produtos e parcerias que conectam diretamente a proteção financeira à adoção de práticas agrícolas sustentáveis. Um dos exemplos é a parceria com a agtech Produzindo Certo, coordenadora do consórcio Reg.IA, que apoia produtores na adoção de práticas regenerativas, como rotação de culturas, cobertura vegetal e manejo responsável do solo.

Na prática, produtores que adotam essas técnicas passam a ter acesso a condições diferenciadas no seguro, reconhecendo que sistemas produtivos mais bem manejados são também menos expostos a riscos climáticos

Outro projeto relevante é a participação da Brasilseg no piloto do ZARC-Níveis de Manejo (ZARC-NM), iniciativa do Ministério da Agricultura (Mapa) e da Embrapa que integra percentuais de subvenção ao seguro à adoção de práticas que aumentam a resiliência das lavouras, especialmente frente ao déficit hídrico.

Segundo Hora, esses projetos sinalizam um novo caminho para o setor. “O seguro deixa de ser apenas reativo e passa a premiar o produtor que investe em manejo adequado, conservação do solo e construção de ambientes produtivos mais perenes”. 

Tendências globais e aprendizados para o Brasil

Embora o agronegócio brasileiro já seja referência internacional em sustentabilidade, mercados como Estados Unidos, Europa e Austrália têm avançado em modelos que combinam seguros, crédito e tecnologia. 

Entre as principais tendências globais estão o uso intensivo de dados climáticos, sensoriamento remoto, geotecnologias, modelos paramétricos para nichos específicos, proteções catastróficas complementares e maior suporte governamental via programas público-privados.

No cenário internacional, também cresce a atenção a soluções voltadas para micro e pequenos produtores, com produtos mais simples, flexíveis e adaptados à realidade local. “Essas experiências podem ser incorporadas ao Brasil, respeitando nossa diversidade regional e produtiva”, avalia Hora.

Seguro paramétrico como forma de complemento

Um dos temas mais debatidos globalmente no mercado segurador é o seguro paramétrico, que – diferentemente do modelo tradicional, que exige vistorias e avaliações de perdas para acionar a indenização – se baseia em indicadores objetivos, como volume de chuva, temperatura, índice de vegetação, velocidade do vento, entre outros.

Segundo o superintendente-executivo da BrasilSeg, apesar do interesse crescente, esse modelo ainda ocupa um espaço complementar na agricultura mundial.

“No agro, os seguros tradicionais de apuração direta de perdas continuam sendo a base”, explica Hora. “Os produtos paramétricos enfrentam desafios técnicos e hoje são mais comuns em nichos específicos, programas governamentais regionais ou como proteção catastrófica complementar”, completa. 

Atualmente, conta Hora, a Brasilseg já desenvolve projetos-piloto nessa área, avaliando possibilidades de aplicação no contexto brasileiro.

Tecnologia no centro da gestão de riscos

A intensificação dos eventos climáticos extremos tem exigido das seguradoras um salto tecnológico. Nesse viés, a Brasilseg foi pioneira no uso de imagens de satélite e inteligência artificial no seguro rural brasileiro. Desde 2018, a empresa opera um sistema integrado com mais de 15 APIs automatizadas, cobrindo todo o ciclo do seguro: da cotação à regulação de sinistros.

Hoje, 100% das propriedades seguradas são monitoradas em nível de talhão, com análises que incluem histórico de safras, índices de desenvolvimento das culturas, zoneamento agrícola de risco climático e avaliação de conformidade ambiental, social e de governança (ASG). Em 2024, mais de 38 mil produtores tiveram acesso à plataforma de sensoriamento remoto, com cerca de 6,5 milhões de hectares analisados.

De acordo com Paulo Hora, esse avanço permite uma subscrição mais precisa, precificação mais justa e processos mais ágeis, reduzindo custos e incertezas tanto para o produtor quanto para a seguradora.

Boas safras não eliminam riscos

Mesmo diante de uma safra recorde de grãos em 2024/25, com clima favorável em boa parte do ciclo, a busca por seguro rural não perde relevância. “O agro é uma indústria a céu aberto. Um bom ano não elimina os riscos”, reforça Hora.

Dados do setor mostram que, mesmo em anos considerados positivos, as indenizações seguem elevadas. Em 2025, até outubro, o mercado já havia pago R$ 3,6 bilhões em indenizações. A própria Brasilseg indeniza, em média, R$ 1,2 bilhão por ano a produtores da sua carteira.

O futuro do seguro rural

Outra tendência clara no mercado de seguro rural é a personalização das apólices. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, soluções padronizadas se mostram insuficientes. Diante desse cenário, as seguradoras passam a considerar cultura, solo, clima, calendário agrícola, histórico produtivo e tecnologias empregadas em cada propriedade.

Esse olhar mais granular também contribui para democratizar o acesso ao seguro rural, especialmente para pequenos e médios produtores, tornando o produto mais compreensível, acessível e alinhado à realidade local.

Na visão de Hora, para a próxima década, o desafio central será consolidar o seguro rural como uma política de Estado, com previsibilidade, investimentos adequados e regras claras. Países que avançaram nesse sentido conseguiram dar mais estabilidade ao financiamento agrícola e reduzir custos associados a renegociações e quebras generalizadas.

“O seguro rural precisa sair da lógica reativa e assumir um papel preventivo”, resume Hora. Nesse cenário, a transferência de risco se consolida como um pilar da adaptação climática, da mitigação de perdas e da construção de sistemas produtivos mais resilientes, beneficiando não apenas o produtor, mas toda a cadeia do agronegócio brasileiro.