
Resumo da notícia
- Máquinas agrícolas evoluíram rapidamente, mas a adoção de tecnologia ainda se concentra nos equipamentos principais, deixando outras etapas defasadas.
- Sistemas de plantio e operações de manejo mudaram pouco, limitando ganhos em uniformidade, emergência das culturas e produtividade.
- O entrave não é falta de tecnologia, mas a postura conservadora do produtor, focada em escala e não em tecnologia de aplicação.
- Muitas soluções já existiam, mas só ganham atenção com “gatilhos” como a inteligência artificial; quem adota cedo obtém vantagem competitiva.
- A eficiência depende de tecnologia em todas as etapas, com destaque para pulverização precisa, monitoramento, treinamento e uso de IA.
Nos últimos anos, a agricultura brasileira vem passando por uma verdadeira evolução tecnológica. Safra após safra, fica mais comum observarmos tratores, colheitadeiras e plantadeiras incorporando recursos cada vez mais avançados, como eletrônica embarcada, monitoramento em tempo real e maior precisão operacional.
No entanto, especialistas alertam para alguns gargalos no processo de adoção dessas tecnologias, que acabam atrapalhando o processo produtivo e dificultando a busca por uma maior eficiência operacional, redução de custos e ampliação das margens – vantagens decisivas em um mercado cada vez mais competitivo.
“Ao observar a rotina no campo, percebo que parte importante desse avanço tecnológico fica concentrado apenas nos equipamentos principais. Quando analisamos a estrutura das linhas de plantio, por exemplo, o conceito básico pouco mudou nas últimas décadas”, afirma Thiago Grimm, engenheiro agrônomo especialista em gestão e tecnologia agrícola.
Para ele, o sistema de plantio continua eficiente, mas permanece praticamente igual, mesmo diante de novas possibilidades tecnológicas já consolidadas. “O resultado é um plantio que funciona, mas que poderia entregar maior uniformidade, melhor emergência das culturas e, consequentemente, ganhos de produtividade”, sinaliza Grimm.
Indo além, o agrônomo aponta que essa limitação no uso de tecnologia não aparece apenas na plantabilidade, como também está presente nas operações de manejo, que muitas vezes recebem menos atenção estratégica.
A visão é compartilhada por Henrique Campos, especialista em tecnologia de aplicação da SABRi Sabedoria Agrícola. Para ele, o gargalo atual não é tecnológico, mas cultural e estratégico. “As inovações estão sempre presentes para o produtor, mas nem sempre o produtor está disponível para essas inovações”, afirma.
Segundo ele, isso acontece porque, historicamente, a prioridade do produtor rural foi crescer rápido, ou seja, a expansão de área cultivada e a necessidade de ganhar escala fizeram com que a preocupação principal fosse ter máquinas suficientes para dar conta da operação, e não necessariamente investir em tecnologia de aplicação.
“O resultado é um sistema eficiente do ponto de vista operacional, mas ineficiente do ponto de vista técnico e econômico”, avalia Campos.
Enquanto o produtor agrícola já diferencia talhões, escolhe variedades específicas e faz manejo localizado do solo, a aplicação de defensivos ainda costuma ser feita de forma uniforme, com o mesmo bico, a mesma taxa e a mesma regulagem em toda a área. “Em uma agricultura onde tudo é tratado de maneira diferente, a pulverização ainda insiste em ser igual para tudo”, observa o especialista da Sabri.
Ondas de inovação e o despertar do interesse
O interesse do produtor por tecnologia não é linear: ele acontece em ondas, concordam Henrique e Thiago. Exemplo disso é que muitas soluções disponíveis hoje já existem há anos no mercado, mas só passam a ser adotadas quando algum “gatilho externo” desperta a atenção. Atualmente, esse papel tem sido desempenhado pela inteligência artificial.
“O produtor só começou a olhar para algumas inovações porque o mundo começou a falar de inteligência artificial”, afirma Campos. Sistemas de aplicação localizada, controle eletrônico de pressão, ajuste automático de gotas e sensores capazes de identificar plantas em tempo real já estavam prontos, testados e disponíveis. “Faltava curiosidade e confiança para adotá-los”, completa.
Embora o discurso sobre inovação esteja cada vez mais presente, a adoção prática ainda é restrita. Campos explica que o produtor rural brasileiro, em geral, é cauteloso. Marcado por crises, instabilidade política e volatilidade de preços, ele só arrisca quando tem segurança de retorno.
Esse comportamento conservador, na visão de Henrique Campos,faz com que muitos esperem a tecnologia se tornar padrão para então investir. O problema é que, quando isso acontece, a vantagem competitiva já foi perdida. Quem adotou antes já reduziu custos, aumentou eficiência e ganhou mercado.
“A verdadeira modernização do agronegócio passa por uma visão sistêmica. Investir apenas nos equipamentos de maior valor não garante eficiência plena se o restante da operação permanece defasado. A alta tecnologia no campo não pode se limitar às grandes máquinas. Precisa estar presente em todas as etapas que sustentam a produtividade e a rentabilidade”, diz Grimm.
No âmbito da pulverização, o especialista da SABRi defende um tripé para o sucesso da operação: certificação das máquinas, monitoramento constante e auditoria do resultado. Tudo isso sustentado por treinamento constante. “Na pulverização, a primeira aplicação é a última chance. Se errar ali, não há tecnologia que conserte depois”, afirma.
Nas regiões onde a margem permite mais ousadia, como nas grandes áreas de algodão do Mato Grosso e da Bahia, a inteligência artificial e a aplicação localizada já são realidade.
Sensores identificam plantas daninhas em tempo real, sistemas ajustam a pulverização automaticamente e drones complementam operações onde máquinas tradicionais não chegam. O resultado é menos produto aplicado, menor custo por hectare e maior controle do processo.