
A robótica passou a integrar a rotina da colheita de açaí na Amazônia como resposta a um dos processos mais perigosos e precários da cadeia produtiva da fruta. Desenvolvido no Pará, o Açaíbot é um equipamento que automatiza a escalada da palmeira, localiza o cacho e realiza o corte com segurança, o que permite multiplicar por até quatro vezes a renda dos peconheiros.
A tecnologia surgiu a partir da tentativa de estruturar uma produção de açaí em áreas de floresta, modelo que ainda predomina no Norte do país. Segundo João Rezende, diretor da Kaatech, o sistema tradicional enfrenta limites históricos.
“A colheita em áreas nativas continua majoritariamente informal, mal remunerada e extremamente perigosa”, afirma. A Organização Internacional do Trabalho classifica a atividade como a segunda mais arriscada do mundo, atrás apenas da coleta de mel em penhascos africanos.
Testado em condições reais da floresta amazônica, incluindo calor, chuvas intensas, alta umidade e dificuldades logísticas, o robô apresentou ganhos expressivos de eficiência. De acordo com os desenvolvedores, a produtividade diária pode saltar de cerca de 100 quilos no método tradicional para até uma tonelada com o uso do equipamento.
O impacto direto aparece na renda. “Quem recebia em torno de R$ 600 por dia pode alcançar até R$ 3 mil, no mínimo quadruplicando o ganho”, afirma Rezende. O Açaíbot opera com autonomia de quatro horas, recarregável em aproximadamente duas horas por meio de sistemas de placas solares. O controle remoto é simplificado e conta com apenas três comandos: subir, acionar a serra, acompanhada de sinal sonoro e realizar o corte.
Além do ganho produtivo, a tecnologia amplia a inclusão no trabalho. Por não exigir que o operador escale a palmeira, o equipamento permite a participação de pessoas que, por limitações físicas ou idade, não poderiam exercer a atividade de forma tradicional.
O desenvolvimento do robô passou por diferentes etapas. Os primeiros protótipos eram artesanais e pesados, com componentes improvisados e estrutura metálica. Ao longo de três anos, o projeto foi redesenhado por equipes de engenharia aeronáutica, robótica, mecânica, elétrica e ergonomia. O oitavo protótipo, finalizado em junho de 2025, atingiu o desempenho considerado ideal, com peso entre oito e nove quilos.
Interesse institucional e expansão
Até o momento, cerca de 500 unidades já foram comercializadas. A fábrica instalada na capital Belém está em operação, com capacidade projetada para produzir até 3 mil robôs por mês. O equipamento custa R$ 19.569,20, com possibilidade de subsídio de 40 por cento para produtores enquadrados no Pronaf.
Além da Amazônia, os desenvolvedores trabalham na adaptação da tecnologia para a Mata Atlântica. Em parceria com organizações locais, o robô está sendo ajustado para a colheita da juçara, espécie ameaçada de extinção e frequentemente explorada de forma ilegal para a produção de palmito.
A proposta é substituir práticas predatórias por um modelo que combine geração de renda, conservação ambiental e uso de tecnologia, ampliando o alcance da mecanização sustentável em sistemas florestais.
Fonte: Globo Rural.