
Resumo da notícia
- Após mais de 30 anos de negociações, UE e Mercosul firmaram um acordo que cria uma área de livre-comércio com 720 milhões de consumidores e 20% do PIB global.
- Apesar da implementação gradual, o agronegócio brasileiro desponta como um dos principais beneficiados, com redução tarifária para até 95% dos bens do Mercosul.
- Café lidera as exportações agro para a UE, e o acordo abre espaço para maior competitividade de produtos de maior valor agregado, como café torrado e solúvel.
- Milho e sorgo ganham cota isenta de tarifas, enquanto carnes bovina e de frango terão ampliação de cotas e redução expressiva de tarifas no mercado europeu.
- A implementação depende de aval do Tribunal de Justiça da UE e aprovação política nos países-membros, com criação de um comitê para monitorar o acordo.
Após mais de 30 anos de negociações, no último final de semana, representantes do mais alto escalão da União Europeia (UE) e do Mercosul estiveram reunidos no Paraguai, onde assinaram um novo acordo comercial entre os dois blocos econômicos. A tratativa criará uma área de livre-comércio com cerca de 720 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 22 trilhões, o equivalente a 20% da economia global.
Em linhas gerais, o acordo prevê que o Mercosul deverá zerar tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos; enquanto a UE deve eliminar tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos. Os efeitos das resoluções previstas no acordo deverão ser sentidos a longo prazo e de maneira gradual; porém, num primeiro momento, fica fácil apontar o agronegócio brasileiro como um dos principais setores beneficiados.
Histórico aponta equilíbrio comercial entre o Brasil e a UE
De acordo com o levantamento da consultoria DATAGRO, compartilhado com o Broto Notícias, o Brasil manteve uma relação comercial bastante equilibrada com a UE em 2025.
Devido ao aumento das exportações, sobretudo de produtos agropecuários, a balança comercial entre o Brasil e o bloco europeu saiu de um déficit de US$ 5,03 bilhões em 2015 para um pequeno saldo negativo de US$ 480 milhões no ano passado, embora tenha registrado momentos de superávit entre 2022 e 2024.
Além disso, na última década, as exportações de produtos agropecuários do Brasil para a UE praticamente duplicaram, alcançando, no ano passado, um recorde de US$ 25,21 bilhões. Esse valor representa 50,6% de toda a pauta de exportação do Brasil para o mercado europeu.
Oportunidade para café solúvel e de maior valor agregado
Devido à disparada dos preços internacionais, o café ultrapassou o complexo de soja como o principal item de exportação do setor agropecuário brasileiro para a UE em 2025, ao responder por 29,2% da receita total de produtos agropecuários.
Segundo a DATAGRO, o acordo entre o Mercosul e a UE não deve gerar grande impacto sobre as exportações de café verde para o bloco, uma vez que ele já ingressa no mercado europeu sem incidência tarifária.
No entanto, ressalta a consultoria, algumas reduções tarifárias previstas na tratativa podem estimular a produção e o avanço de itens de maior valor agregado, como o café torrado e não descafeinado e, principalmente, o café solúvel, ao aumentar a competitividade do Brasil frente a outros exportadores. “Com isso, abre-se espaço para ganho de participação em segmentos nos quais a presença brasileira ainda é tímida e restrita”, afirma a DATAGRO.
Mercado brasileiro de grãos ganha competitividade
Na visão da consultoria, o novo acordo deverá abrir espaço para maior competitividade das exportações brasileiras de grãos à UE, com destaque para milho e sorgo.
O acordo cria, para ambos os grãos, uma cota conjunta de importação isenta de tarifas, reconhecendo a alta substitutibilidade entre as duas culturas. A implementação também será gradual, ao longo de cinco anos, totalizando 1 milhão de toneladas.
Historicamente, as importações europeias de sorgo são limitadas, enquanto a UE figura entre os maiores importadores globais de milho, tendo adquirido 20 milhões de toneladas em 2024 e 15,4 milhões de toneladas entre janeiro e outubro de 2025. A maior parte desse volume teve origem na Ucrânia (64%), seguida por Estados Unidos e Brasil (8% cada).
“A nova cota representa 32% do volume exportado de milho pelo Brasil ao bloco em 2025 e cerca de 5% das importações totais do grão em 2024. Assim, há oportunidade de consolidação do mercado já existente e potencial expansão do market share (participação de mercado) brasileiro”, avalia a DATAGRO.
No caso da soja, o acordo não altera o regime tarifário, já que as importações do grão pela UE já são isentas de tributos. Atualmente, o bloco europeu é o segundo maior destino da soja brasileira, atrás apenas da China, com destaque para Espanha, Holanda e Itália.
Carne bovina e de frango devem ganhar mais espaço
Atualmente, a UE responde por cerca de 3,5% das exportações brasileiras de carne bovina, participação considerada mais qualitativa do que quantitativa. Sob a ótica europeia, porém, a carne bovina brasileira representa aproximadamente 25% do total importado pelo bloco, reforçando o papel do Brasil como fornecedor estratégico extrabloco.
Hoje, os países sul-americanos enfrentam a tarifa plena de 12,8% acrescida de € 2,21 por quilo exportado, além da Cota Hilton, que garante ao Brasil 10 mil toneladas com tarifa de 20% sobre cortes específicos. Com o novo acordo, será criada uma cota de 99 mil toneladas com tarifa inicial reduzida para 7,5%, além da remoção da tarifa sobre a Cota Hilton.
“Para o Brasil, isso indica um maior potencial de escoamento da produção interna, fortalecendo a redistribuição da carne no mercado externo em um momento de maior incerteza, especialmente quanto ao ritmo dos embarques para a China”, avalia a DATAGRO.
No setor avícola, o acordo promove uma mudança significativa. O modelo atual – cota de 15 mil toneladas por ano com tarifa zero, enquanto volumes excedentes pagam € 1.024 por tonelada – será substituído por uma cota de 180 mil toneladas anuais para o Mercosul, com tarifa zero.
Atualmente, as exportações brasileiras de carne de frango para a UE representam pouco mais de 2% do total embarcado pelo Brasil, enquanto cerca de 25% das importações europeias da proteína têm origem brasileira.
Próximos passos
Além da implementação gradual das medidas tarifárias previstas no acordo, sua efetivação ainda precisa de algumas decisões políticas dentro do bloco europeu. Conforme acompanhamento da DATAGRO, antes de votar a implementação do acordo, o Parlamento Europeu solicitou, nesta semana, ao Tribunal de Justiça da União Europeia que avalie se as mudanças propostas no acordo estão em conformidade com os tratados do bloco. Com isso, a ratificação do mesmo se encontra suspensa.
Assim que o Tribunal der seu aval, o acordo segue para aprovação do Parlamento Europeu, para depois ser ratificado pelos Congressos Nacionais de cada país da União Europeia. Além disso, deverá haver a criação de um Comitê de Monitoramento, que irá acompanhar de perto a implementação das medidas propostas pelo acordo.