
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta quarta-feira (19/11), uma autorização excepcional para que a Embrapa realize pesquisas sobre o cultivo de cannabis no Brasil. A decisão marca um passo estratégico para o avanço científico do país, permitindo aprofundar estudos agronômicos e genéticos sobre a planta, que possui aplicações potenciais na agricultura, saúde, bioeconomia e na indústria de fibras e sementes.
Com a liberação, a Embrapa inicia três linhas principais de pesquisa:
- Conservação e caracterização de material genético, garantindo soberania e rastreabilidade.
- Pesquisa agronômica aplicada à cannabis medicinal, com foco em evidências que orientem políticas públicas.
- Pré-melhoramento do cânhamo (hemp), abrindo espaço para cadeias industriais de fibras, sementes e insumos.
Segundo Clenio Pillon, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, a autorização vem após quase dois anos de preparação técnica. Além da liberação da Anvisa, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) destinou mais de R$ 13 milhões para pesquisas com canabidiol conduzidas pela Embrapa e parceiros.
A Anvisa acompanhará as pesquisas de perto, e a Embrapa ainda passará por inspeção presencial, que deverá atender protocolos rigorosos e não poderá comercializar nenhum produto resultante dos estudos. Podendo apenas enviar material vegetal a outras instituições autorizadas.
Nessa fase inicial de estudos, integram o projeto: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, banco de germoplasma e caracterização genética; Embrapa Clima Temperado, melhoramento genético, sistemas de produção, bioinsumos; Embrapa Algodão, desenvolvimento de cultivares para fins industriais; e Embrapa Agroindústria Tropical, pós-colheita, extração, análises químicas e criação de uma extratoteca.
A atuação será em rede, avaliando diferentes genótipos em condições climáticas contrastantes, já que os níveis de fitocanabinoides variam conforme temperatura e fotoperíodo.
Hoje, o Brasil tem regulamentação para uso medicinal e cultivo de cannabis, mas não possui regras para cultivo, o que gera dependência de insumos importados e aumenta custos. A expectativa da Embrapa é fornecer base técnica para:
- novas cadeias produtivas,
- geração de emprego e renda,
- políticas públicas,
- segurança regulatória,
- redução da dependência externa,
- soberania tecnológica.
Além disso, muitos materiais genéticos chegam ao país por decisões judiciais, sem quarentena ou controle fitossanitário, criando riscos agronômicos e sanitários que a pesquisa busca mitigar. Assim, incentivando o cultivo e o uso medicinal da cannabis de maneiras mais responsáveis no futuro.